"a gente tinha só 12 anos"... mas já era capaz de construir vontades. era tempo de começar a descobrir. se descobrir, descobrir o outro. a 12 anos atrás eu te vi sentado na calçada, de óculos e os olhinhos verdes por de trás deles. despertei ali - no seu sorriso bobo, no par de óculos de grau e nas brincadeiras de criança. você ainda tava aprendendo a andar de skate e jogava bola muito mal. no fim da tarde a gente corria pra se esconder e ia até a venda do Luis pra comprar um chiclete de metro. sentavamos os dois naquela esquina, pulando os muros que apareciam na frente. tudo era dito assim, bem baixinho pra ninguém ouvir. nosso esconderijo, na frente de uma construção. tão apertado que o único jeito era um ficar de frente pro outro, mascando um metro de chiclete em menos de 3 minutos, antes que alguém descobrisse que a gente tava ali.
o esconderijo era seu, mas você me levava pra ele. não te olhava nos olhos, fugia das aproximações, dava respostas tortas só pra ninguém descobrir. eu tinha só 12 anos e nenhuma experiência em gostar de alguém... muito menos em esconder algum sentimento. gostava de você com a ansiedade e o medo de quem se depara com isso pela primeira vez. existia muito cuidado nesse sentir. subiamos e desciamos aquela rua falando de coisas de quem têm só 12 anos e quase nenhuma experiência na vida. você dizia que já tinha bebido cidra numa festa de reveillon e ficado um pouco bebado. me fazia segurar na sua mão pra mostrar que ela tava fria. eu fingia nem ligar, mas o sangue circulava 12 vezes mais rápido, com certeza.
agora, 12 anos depois te (re)encontro. você não é mais aquele menino timido de 12 anos. continua com o mesmo sorriso bobo, mas agora virou um homem! tento fazer da situação o mais natural possível, mas o coração palpita de leve quando você lembra do nosso primeiro beijo. e é pouco, é só isso: toda lembrança faz sentido.