10 de fevereiro, 2009 - no trajeto de volta pra casa: passam os carros, passam as cores, as vozes. eu passo alheia aos barulhos, cinzas, elogios e berros. vendem de tudo no grito. guarda-chuva, pilha, relógio, carne estragada, bundas, acessório pra bunda, sutiã de silicone, silicone pro cerébro, bolsas, livros, revistas, tinta pra cabelo, comida de gato, um shopping inteiro, óculos falsificado, gente falsificada, gente estragada, cigarro, porta cigarro, porta bituca de cigarro, eu penso: não quero isso, não quero mais nada disso que tá aqui dentro, não isso. o que estão fazendo aí fora mesmo? ah sim. estão vendendo até a mãe. e se me perguntar qual era o desenho daquela parede, a cor daquela porta, a faixada que mudou, o nome do açougue, da putaquepariu do caminho... não sei. só foquei naquilo que eu queria fotografar e estampar nas faixas e nas faixadas. três crianças que me olharam. e o sorriso de cada uma.
o primeiro um chinesinho, tão pequeno que nem dente tinha.
a segunda usava óculos, comia uma bolacha água e sal.
o terceiro levava uma mala maior que ele nas costas.
sem dente, com óculos ou carregando peso, todos sabiam sorrir. com os olhos. e com os lábios. sorrisos sem tamanho, sinceros.
e isso não estava a venda. não tem um preço. é de graça.